terça-feira, 4 de outubro de 2011

O Conto das Marianas




O crepúsculo da manha pintava o céu, enquanto um silêncio e um profundo desespero tomam conta daquela velha cabana no alto das falésias. A paixão de horas antes agora dava lugar ao frio da partida. Quando uma pergunta rompe o silêncio:

- Terá que partir mesmo?  (Ela perguntou com os olhos marejados)

- Infelizmente, tento minhas obrigações com o mar, não há como evitar. Se o destino quis assim, assim será. (Responde de uma forma seca)

-Mas é perigoso, e particularmente, não acredito em destino. Temo por sua vida!

- A questão não é as excentricidades em que acreditamos, mas sim a fé que deposito em você. Terá que ser forte caso eu não volte!

Com  voz tremula, ela replica:

- Não fale besteiras, já que tem tanta fé em mim, deveria usar parte dela para crer em si mesmo!

- Sim! Concordo com você, porém as expectativas não são das mais otimistas.

- Por quais motivos?

- Apenas dois.

E apontando da janela do casebre em direção ao oceano, ele diz:

- O primeiro, é que sinto que não irei voltar. O segundo que lá no horizonte, onde aquelas nuvens negras e carregadas que borra o céu está se formando uma tempestade. E por ironia do destino, é para lá que devo ir.

Já irritada e tomada pelo desespero, ela o reprime em voz alta:

- NÃO EXISTE DESTINO! Eu te suplico, não vá! É loucura!

- Você não entende! (ele balbucia)

- Eu não entendo? (ela retruca) Você está rumando à morte e ainda me pede para ver uma lógica nisso
tudo? Deve estar brincando mesmo. E se o destino realmente existe não esta nas mãos do acaso determiná-lo, e sim nas tuas!

-Então está determinado, eu vou!

Pela primeira vez, ela cai aos prantos, na tentativa de buscar consolo e conforto ou uma possível comoção de seu companheiro. Mas mal sabe ela, que os deuses já traçaram o infortúnio futuro daquele jovem homem do mar.

Aos poucos, o desejo de impedir a partida de seu amante se desnutria da cabeça, ela já estava se conformando quando fez tal pergunta:

- Prometa deixará uma parte de seu coração comigo antes de partir?
Ele responde sem o intuito de mergulhá-la mais ainda nas lágrimas.

- Deixaria contigo até mesmo minha essência, mas tenho uma divida, meu corpo e minha alma pertencem ao mar, e é nas profundezas das Marianas onde devo saldar meu pesar e repousar pela eternidade.

Novamente ela chorar, mas agora as lágrimas têm um gosto e um peso diferente. Amargas e tão pesadas que ao se chocar com o chão, faz o coração se despedaçar. Ela profere heresias aos céus, questionando o sarcasmo dos Deuses. Blasfemando sem hesitar:
- Céus! São como porcos, indignos de quais quer honra! Como vocês têm a audácia de separar este amor?

Vendo sua amante gritar e chorar ensandecidamente, o jovem homem a acolhe em seus braços, e com sutileza ele diz ao pé do ouvido:

- Sou corsário, é meu dever partir, as conseqüências serão muito piores se tenta fugir. Fiz um pacto, vendi minha alma, agora chegou o dia da cobrança.

A longe despedida se aproxima do fim. Eles se beijam, e com um forte abraço o adeus é dado. Ele se levante da cama, ajunta sua coisas, caminha até a porta e olha para ela.

- Temos a eternidade para ficar juntos, te espero nas Marianas

Ela diz:

- Prometo que em breve nos encontraremos!

E assim o jovem corsário parte, andando lentamente em direção a uma embarcação que o esperava na praia. Ela correr até o farol, sobe até seu topo, e de lá vê seu amante seguir seu destino. Indo cada vez mais distante no oceano que de Pacifico só tem o nome com um enorme borrão negro ao fundo. E pela terceira e ultima vez, lágrimas rolam de seus olhos discretamente.



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